Na sua lista de contatos, deve haver alguns que são especializados em certos temas. Há aquele para quem você manda mensagem pedindo dicas de viagem, outro que você sempre chama para ir a um bar e aquele para quem telefona quando o carro não dá partida. Será bateria arriada? Alguns me chamam quando o assunto é curso ou palestra. O pedido que recebi por videoconferência, feito por um corpo docente estreante, era que eu assistisse às aulas de um curso de TI para fazer sugestões e críticas, sem constrangimentos. “Sem constrangimentos?”, perguntei duas vezes. “Sem constrangimentos”, responderam-me nas duas. Contrataram-me para procurar pelo em ovo, disseram.
O problema é que me puseram cinco ovos peludos ao longo de uma semana. São todos peritos em suas áreas de expertise, inegavelmente, mas os vi, com microfones estilo Sandyjúnior [sic], cantar algo que nunca tinham cantado antes: a arte de ensinar a alguém alguma coisa.
Em vez de simplesmente falar “ensinar”, criei essa forma longa de dizê-lo para poder apontar uma diferença que me é muito importante: a diferença entre “ensinar algo a alguém” e “ensinar a alguém alguma coisa”. Vejo até profissionais do ensino fazerem o primeiro enquanto prefiro o segundo.
Há mais de 25 anos o acesso à informação deixou de ser um obstáculo. Qualquer aluno tem acesso instantâneo a toda a bibliografia que o professor utilizou para criar a ementa. E, na última década, qualquer aluno passou a ter acesso a outros professores, de sotaque indiano, ensinando o mesmo conteúdo de formas diferentes. Nesse contexto, tentar ensinar algo a alguém é uma luta perdida.
O que os livros, as wikis, a Udemy, os vídeos no YouTube e até as IAs ainda não conseguem fazer é o contrário: ensinar a alguém alguma coisa. Numa sala de aula com 30 alunos, 31 aulas diferentes acontecem simultaneamente: a que o professor está ministrando e as outras 30 que cada aluno está recebendo. É necessário fazer a gestão desse fenômeno intangível, desse éter entre mestres e aprendizes.
Você já deve ter testemunhado isso. Numa turma silenciosa, o professor acaba de concluir um raciocínio simples. Um aluno diz que não entendeu. Antes que o professor responda, um colega o ajuda, repetindo o que acabara de ser dito com quase as mesmas palavras (senão as mesmíssimas) que o professor usou. “Ah, agora entendi!”, diz o aluno. Por que pessoas diferentes, dizendo a mesma coisa, são compreendidas de forma tão diferente?
Porque a relação afetiva entre o emissor e o receptor da mensagem dá acesso a caminhos diferentes da cognição. Um professor distante envia a mensagem por becos, ao passo que um melhor amigo a conduz por avenidas largas. Você já sofreu por anos com alguma matéria chata cuja mera troca por um professor que te parecia brilhante mudou completamente o seu desempenho? Garanto que pouco mudou na matéria de um semestre para o outro. O que mudou foi o relacionamento estabelecido com quem te ensinou Cálculo I. Aulas pontuais de professores famosos como Karnal, Clóvis de Barros e Cortella são exitosas porque, antes mesmo de serem vistos presencialmente pelos alunos pela primeira vez, já há um relacionamento estabelecido com eles por meio da mídia. Os alunos transferem (atribuem) a eles autoridade no assunto, boa didática e afeto. Isso abre viadutos, estradas e rotatórias entre olhos, ouvidos, memória e cognição.
Quando sou chamado para palestrar, faço muitas perguntas aos anfitriões sobre o público: faixa etária, profissão, formação, o conteúdo servido antes de mim e o que será servido depois, o nome dos demais palestrantes, vídeos da edição anterior do evento… São tantas perguntas que confundem meu preparo com nervosismo. Na tentativa de me acalmar, dizem: “Relaxa. Você é expert nesse assunto. É só subir no palco e falar o que você sabe.”
É essa a causa raiz da postura de ovos peludos. Para quem não domina a arte, ensinar a alguém alguma coisa sofre da mesma confusão pela qual passa o trabalho de jornalistas e atores. Acham que basta falar algo para que o ofício se dê por completo. Não é só decorar e falar o texto? Não é só ler o teleprompter em voz alta?
Tive a experiência coletiva de assistir “Ainda Estou Aqui” no cinema. Pude ouvir fungadas e assoadas na cena em que Fernanda Torres (Eunice Paiva) retorna à sorveteria com os filhos e sem Selton Mello (Rubens Paiva).
O que ela fez não foi somente sentar-se calada diante da câmera e olhar ao redor. Esses segundos na tela exigiram dias de preparo para que ela conseguisse produzir aquele semblante, aquele movimento de corpo. E, para que tivéssemos um relacionamento com a personagem que desse acesso à nossa emoção, meses de trabalho de roteiro, fotografia e direção foram consumidos.
A curadoria que um bom professor faz, do que ensinar, em qual ordem, com quais exemplos, com qual profundidade, por quanto tempo, é um trabalho de alfaiataria que tem bom caimento somente para aquela turma. “Dou a mesma aula há 15 anos” é a fala de um professor imperito que deveria ser julgado por um comitê de ética.
Em 15 anos, a bibliografia não é a mesma, a cultura popular não é a mesma, ele como pessoa não é o mesmo e nem os alunos são os mesmos. Há algo de errado aí. Note que um vídeo no YouTube é, literalmente, a mesma aula há 15 anos.
Para se ensinar algo a alguém, basta falar o conteúdo. Para ensinar a alguém alguma coisa, é necessário saber quem são, onde vivem e o que comem os aprendizes. Como nenhum Globo Repórter mostra isso, para o exercício dessa arte de ensinar é necessário conviver com os alunos: ouvi-los em conversas, ler textos produzidos por eles, assistir aos seus seminários, corrigir provas, aparecer no happy hour, conhecer as famílias etc.
Isso põe o ensino mediado por professores que se relacionam com os alunos num patamar superior e inatingível pelo ensino a distância (EaD) de vídeos gravados, por livros e até pela Inteligência Artificial.
Imagine a minha frustração ao palestrar: é como se eu almoçasse sabendo que não haverá sobremesa. Depois dos aplausos, nem sempre dão espaço para dúvidas; não converso com a plateia, não assisto aos seus seminários, não corrijo provas. Volto para o aeroporto sem poder ir ao coquetel para cumprimentá-los.
O que te expliquei até aqui foi a introdução da minha conversa de diagnóstico com os novos professores, e obtive autorização deles para te fazer este relato. Prometeram-me que não haveria constrangimento, mas esse era o sabor da torta que servi.
Eles não se planejaram para que um não repetisse o conteúdo do outro. Houve tópicos que os cinco repetiram em todas as aulas. Que enfadonho! Não montaram a linha do tempo corretamente e desovaram tópicos avançados sem terem consolidado o básico antes.
As perguntas ao final da aula eram tão numerosas que revelaram que aquela aula inteira havia sido em vão. Os exemplos citavam autores, produtos e tecnologias que os alunos não conheciam e, portanto, não serviam para emoldurar a teoria. Não criaram provas, exercícios ou questionários para que os alunos pudessem mensurar o quão capacitados estavam ou para que diagnosticassem novas dúvidas e confusões.
Apenas transmitiram o conhecimento. Ensinaram algo com qualidade na informação, de fato, mas não ensinaram a alguém. Fiz com eles aquilo que não fizeram pelos alunos deles: os conheci, os ouvi, pensei neles, ajustei minha prosa especificamente para o repertório de cada um. Citei “Ainda Estou Aqui” porque soube que alguns deles tinham assistido ao filme juntos e se emocionado. Alfaiataria, lembra? Ninguém nasce sabendo, mas agora que eles sabem fazer essa costura, tenho certeza de que a próxima turma será espetacular.



